Os Medos na Idade Média
2016

In Dei nomine ac ejus gracia | Per Graça de Deus nosso Senhor
Sob o escudo do medo viveis, ó gentes que per ora passais por terras deste reino; tus, os que temeis a guerra, molésteas e outras maldicências, per ora aqui estais, entre bobos e jograis, que os males espantais. Ora esgardae, como se fosteis presentes, que outros tantos ausentes menos fortuna an tido e por tais padecimentos penaram, que este é tempo de espantar demónios.
Os temores medievos tomaram conta do Mercado Medieval de Óbidos, invadindo o espírito de uma sociedade para a qual o invisível está presente, e detém tanto poder como o visível. Nestes tempos ninguém duvida: o outro mundo espera-os. Esse outro mundo é o mundo onde vivem os mortos. Eclesiásticos, guerreiros e camponeses são dominados pelas mesmas angústias, partilham o sentimento geral de impotência de dominar as forças da natureza. Tudo o que parece desregramento da natureza é considerado sinal anunciador das atribulações precedentes do fim dos tempos.
A cólera divina pende sobre o mundo e pode manifestar-se a qualquer momento, e o que estes podem fazer é garantir a graça dos Céus. Com a ameaça do Apocalipse pairando sobre si, vivem sob o jugo do medo: Medo da Violência causado pela guerra; Medo da Miséria dos tempos parcos; Medo da Doença que se espalha; Medo do Desconhecido que os invade; e Medo do Mundo das Trevas que se abate sobre si; procurando a cada ação espantar os Medos e apaziguar a cólera Divina, vivendo e lutando em nome de Deus.

A construção da Imagem do evento
A conceção e elaboração do cartaz da 15.ª edição do Mercado Medieval de Óbidos teve como base a definição da temática dos Medos na Idade Média, partindo do notável trabalho desenvolvido pelo historiador medievalista, George Duby, no mítico livro para os especialistas da área, “O Ano 1000”. Este livro, atualizado recentemente numa das suas últimas publicações “Ano 1000 Ano Dois Mil, No Rasto dos nossos medos”, que aprofunda e procura especificar e explicar esta ideia de passagem de milénio, colocando em confronto as realidades e quotidianos existentes nos diferentes milénios, realçando pontos comuns e diferenças principais.
A atmosfera do medo, ligada profundamente à religião e à ideia de um Deus castigador, não havendo nenhuma categorização dos medos, dado que provinha tudo da ira de Deus, é talvez o conceito mais presente na época medieval, transversal às diferentes realidades europeias e que servirá de base para o visitante testemunhar a dimensão medieval no próprio evento, através da distribuição das zonas e da animação definidas nestes pressupostos.
A realidade de Óbidos, na sua classificação enquanto Vila Literária e Criativa por parte da UNESCO, intensificou esta relação que se tem vindo a desenvolver com o livro e, nesse sentido, tornou-se importante trabalhar o manuscrito medieval. As tradições artísticas e o contexto histórico da iluminura do fólio 90 do manuscrito “Apocalipse do Lorvão: Visão do Cordeiro e dos Quatro Seres”, na sua relação com o tema do Medo, serviu como documento base para trabalhar a imagem do evento, à qual se aliou o facto deste mesmo manuscrito ter sido classificado por parte da UNESCO como património documental da humanidade, em Outubro de 2015.
“O Apocalipse do Lorvão”, manuscrito iluminado datado de 1189, do início do reinado de D. Sancho I, segundo rei de Portugal, é uma das raras obras do género que sobreviveu da Idade Média portuguesa, até aos nossos dias. Este documento é um comentário ao Livro do Apocalipse, último livro do Novo Testamento, que contém as revelações recebidas pelo Apóstolo S. João Evangelista, quando este se encontrava na ilha de Patmos. A obra é uma cópia de um dos vários códices existentes do Commentarium in Apocalypsin denominados Beatus, nome derivado de Beato de Liébana, monge que viveu na transição do século VIII para o século IX, num ambiente de crença de Fim do Mundo, acentuado pelo aproximar do Fim do Milénio.

Análise Geométrica – Sendo Circulus, o expoente da ideia de perfeição, o círculo constitui uma das formulações geométricas de maior importância alegórica na espiritualidade medieva, participando de algumas das noções comuns ao ponto – perfeição, unicidade, totalidade, indivisível. Ao longo dos tempos, o círculo foi sendo relacionado com essa noção universal de movimento perpétuo, desprovido de início ou fim. O fl. 90 do “Apocalipse do Lorvão” exibe um enquadramento circular, aglomerando os quatro seres viventes acompanhados (no centro da composição), substituídos na imagem do Mercado Medieval de Óbidos por imagens da recriação histórica deste evento. Pelo “Apocalipse do Lorvão” surgem outras figuras, nomeadamente no fl.108v – “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, em que surgem com espadas e cruzes, ao em invés de balanças acentuando a ideia de salvação, que está associada ao cavaleiro da expansão cristã. No programa do Mercado Medieval, esses elementos completam a informação.
Análise Numérica – a simbologia do número 4 é de reconhecida importância, quer para a formulação de um imaginário afeto às sociedades cristãs, quer do ponto de vista da própria estruturação e ordem natural. Quatro são os pilares do universo: os elementos – fogo, ar, terra e água; os pontos cardeais; as estações; e os ventos. Quatro são os humores do Homem, os números da Tetráctis pitagórica, os braços da cruz, os rios do Paraíso, os mares, ou mesmo as letras que compõem o nome de Deus: YHVH. Produto da soma da unidade (1) com a Trindade (3) – junção da potência criadora com o domínio espiritual – alcança, assim, a próxima dimensão: o terrestre. A sua ligação ao material confere-lhe esse pendor corpóreo, sensível e perecível, condições do plano do mundo revelado. Deus encarregou de transmitir aos seus servos os eventos futuros, comunicando, por meio do anjo, que enviou a João. Apesar da Escritura não sugerir qualquer vinculo numérico, o anjo mensageiro encontra-se figurado exatamente quatro vezes nesta imagem.
Análise Cromática – As especificidades deste manuscrito, no contexto da iluminura românica em Portugal, para além da paleta de cores utilizada, devem-se, também, ao facto de ser o único manuscrito com um programa iconográfico desenvolvido e coerente. O carácter simbólico e escatológico do texto e da imagem, na tradição literária do comentário ao Apocalipse, e a necessidade de divulgar uma mensagem no contexto político-religioso da expansão cristã peninsular, terão levado o artista do “Apocalipse do Lorvão” a criar um programa iconográfico que se traduz em 88 imagens, optando pela utilização de cores contratantes e luminosas nos fundos e corpos transparentes que parecem exaltar a espiritualidade presente no texto. O uso de apenas 3 pigmentos predominantes (amarelo, laranja e vermelho) não se deveu a uma pobreza do scriptorium, mas sim aos facto de serem os pigmentos disponíveis na época e serem as cores que mais se adequavam a uma estética da luz que desperta no ocidente a partir dos meados do séc. XII. Constatamos, no “Apocalipse do Lorvão”, a primazia do desenho sobre a cor que surge em determinados espaços com uma intencionalidade muito precisa, revelando um carácter simbólico, mas também fundamental para definir a composição e determinar os espaços em que a cena se desenrola.

Uma experiência inesquecível
“A peste foi um período que marcou de forma muito intensa o período medieval e qualquer pessoa que padecesse desse mal era colocado em gafarias”, adiantou Ricardo Ribeiro, por parte da organização, acrescentando que “as atividades debruçam-se sobre os receios da população da época. A recuperação da mouraria, com a criação de um acampamento mouro com teatro, música e dança, dá a conhecer o modo de vida daquela população que estava presente na Península Ibérica no período medieval“.
Num torreão do Castelo, foi criado um jogo específico para este evento, em que através de enigmas, caças ao tesouro, e um conjunto de desafios que são colocados aos participantes eles “têm que se conseguir libertar da torre do castelo”.
O responsável garantiu “uma experiência inesquecível” em que, por poderem trajar-se à época, “os visitantes passam à condição de participantes, encarnando uma personagem”.
Todos os dias, a programação foi diferente e, ao todo, segundo o administrador da empresa municipal Óbidos Criativa, foram realizadas “642 atuações, desde o teatro, à música, dança, caravanas, torneios, atividades lúdicas e ‘workshops’, envolvendo 24 grupos de animação, 5 cavalos, 2 dromedários, 1 burro anão, 3 falcões, 2 póneis, 2 burros e 4 canídeos, entre eles, um saluki e um dogue alemão. Além dos grupos musicais portugueses, há também músicos oriundos de Espanha, Itália e França”.
Cerca de 700 voluntários estiveram envolvidos no certame, 72 bancas de mercadores, artesãos e artes de adivinhação e ainda 600 trajes da época para alugar. “O evento tem uma componente comunitária forte, o concelho está aqui todo presente”, salientou, Ricardo Ribeiro, adiantado que “é isto que torna este evento único”.

Fontes
Claro, A., Lemos, A., Melo, M.J., Miguel, C., Miranda, A. (2008). A cor na iluminura portuguesa – Uma abordagem interdisciplinar. Revista de História de Arte nº5. Publicação Semestral do Instituto de História da Arte, da faculdade de Ciências Sociais e Humanas, UNL.
Dias, Ana de Oliveira (2012), Commentarium in Apocalypsium: o número e a forma geométrica na tradição simbólica de ilustrações do Beato de São Mamede de Lorvão, Dissertação de Mestrado em História Medieval, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Lisboa.
Duby, Georges. Tradução de Telma Costa. Ano 1000 Ano 2000, No rasto dos nossos medos. Lisboa: Editorial Teorema, 1997.
Revista de História da Arte (n.º5 / 2008) – Revista de História da Arte Instituto de História da Arte – FCSH/UNL
Jornal Oeste Online, 19 Julho 2016

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