Amor e Guerra – A Luz e as Trevas
2008

Uma crónica no Jornal Público: “Um mercado medieval que parece mesmo um mercado medieval”
“De tanto crescer, a feira medieval saltou para fora das muralhas do castelo e este ano parte do evento decorre na encosta poente de Óbidos, por onde, aliás, se faz a entrada. Durante este dias, este é talvez o único castelo do mundo onde se paga para sair. As bilheteiras estão localizadas na Porta da Talhada, que os visitantes atravessam descendo um caminho ladeado de barracas e com vista para um extenso vale que se mantém milagrosamente intacto na sua actividade agrícola sem quaisquer urbanizações. De noite, aquilo é uma enorme mancha escura que dá largas à imaginação dos visitantes que a olham desde a atmosfera irreal de uma festa onde, como em todas, há luzes, música, danças, lojas e comida. No meio da multidão, é fácil cruzar-se com burros que transportam mercadorias para a feira numa logística milenar posta agora ao serviço de um evento moderno. Um grupo de saltimbancos anima os comensais numa esplanada ao lado de um churrasco onde roda ainda o que resta de um porco. À volta estão as lojas de artesanato, bijutaria e os locais de perdição dos doces conventuais (…)
A mole por vezes estaca, sobretudo se for a hora de ponta, que ataca ao jantar. É difícil avançar no meio de milhares de pessoas nas ruas principais, mas há zonas de descompressão. Como esta, onde duas simpáticas camponesas depositam um jarro de vinho tinto numa mesa mal limpa. Um robusto e transpirado frade transporta uma travessa de carne com migas. Não há batatas, que também as não havia na Idade Média (…). Nesta tasca, a ementa oferece as sopas Prenúncio da Trovoada e Regalo da Plebe. As carnes têm escolha farta, mas destacam-se os Nacos à Taberneiro, o Desejo da Princesa e as Concubinas do Rei. E nas sobremesas hesita-se entre o Manjar dos Frades, os Bobos da Corte e o Doce da Estalajadeira.
A verdade é que a feira medieval de Óbidos parece… uma feira medieval. Janta-se entre fardos de palha e toscas mesas de madeira, em frente às fogueiras onde dignos representantes do povo cozinham volumosos pedaços de carne assada. Por entre o fumo, a figura imponente das torres do castelo e das ameias, agora decoradas para a festa. E como a organização decidiu que a animação não tem hora nem local marcados, é possível os convivas serem brindados por um conjunto de trovadores ou surpreendidos por um guerreiro de ar facínora e machado em riste pronto a despedaçar uma pobre mulher que traz amarrada.
Em todo o recinto ecoam gaitas–de-foles, flautas e tambores (são quatro os grupos de danças medievais, dois de dança árabe e 14 grupos de animação nocturna). E há tendas onde se ouvem cânticos gregorianos e música medieval mais refinada.
Um mendigo leproso, os pés e a cara repletas de chagas, o olhar sofredor pairando no vazio, arrasta-se na poeira. Está tão andrajoso que as crianças lhe têm medo e os adultos não resistem a usar a parafernália digital na sua frente. É o mendigo Basílio, um artista habitual neste evento, que, no final, costuma doar uns bons milhares de euros das esmolas obtidas a instituições de solidariedade social.
Druidas, bruxas, cavaleiros, princesas, reis, cartomantes, bêbados, bárbaros, mouros, trovadores, povoam a feira dentro e fora das muralhas. (…) Há vendedores (são 96 as bancas de artesanato e outros produtos) que se queixam de menos negócio este ano, mas as 16 colectividades que exploram as tasquinhas não têm mãos a medir. Para lá da aparência tosca, a organização teve esta ano cuidados redobrados com a higiene e segurança alimentar, não fosse a ASAE estragar a festa – contratou uma empresa da especialidade que presta consultoria e inspecciona no terreno se está tudo de acordo com as normas legais. É certo que a comida é apresentada em recipientes de barro, mas este é vidrado. E as cozinhas, escondidas entre serapilheiras e armações de madeira, têm água canalizada, lavatórios em aço inox, frigoríficos, luzes de emergência e todas as modernices que se exigem a um Portugal asséptico do séc. XXI.”

Caçada Medieval
Esta edição contou com algumas novidades, nomeadamente com a presença de acampamentos de vários grupos vindos de seis países europeus – Portugal, Espanha, Polónia, Bélgica, República Checa e Alemanha, promovendo a realização de um Encontro Internacional de Grupos de Recriação Histórica e a recriação de uma Caçada Medieval. A caçada foi uma ação radical destinada a um público jovem e que consistia num jogo em que os participantes (à vez ou em equipa), vestidos à época e armados com bestas ou arcos, tinham de procurar num grande espaço arborizado, delimitado por corda por motivos de segurança, diversos alvos clássicos em modelos de 3 dimensões que representavam animais, procurando acertar a uma distância de 12 metros.

Cenografia de uma Urbe Medieval
Em contraponto com a área dos acampamentos, que representava os aspetos mais rurais e bélicos da Idade Média, na zona da Cerca, foi montada uma zona cenográfica recriando aspetos eminentemente urbanos preparados especificamente para ser animada por personagens citadinas. Para o efeito, o cenário teve possibilidade de circulação interior permitindo aos actores o acesso a janelas, varandas e uso de portas para recriar a vivência quotidiana de uma urbe medieval.

Programa “Melhor Idade”
Pelo 3.º ano consecutivo, o Programa ‘Melhor Idade’ participou no Mercado Medieval. Com a colaboração de uma equipa de doze animadoras e de um grupo de voluntários do Banco Local de Voluntariado de Óbidos, foi possível, durante onze dias, assegurar oito horas diárias de trabalho. Todos os produtos disponíveis para venda foram confecionados pelos utentes do Programa, nomeadamente, bolos e artesanato.

“Óbidos está bem vivo”
Mais uma vez o Mercado Medieval de Óbidos voltou a ser um sucesso. Considerado um dos mais emblemáticos eventos medievais do País, o evento conseguiu, nesta edição, um nível muito elevado de conforto dos visitantes, de valorização do património e de recriação histórica. Para além de ter crescido em área, o Mercado Medieval de Óbidos esteve dividido em duas zonas distintas: uma zona mais rural, no Parque da Vila, com armas, acampamentos, exposição de diversos animais, e uma zona mais urbana, na Cerca do Castelo, com nova cenografia.
A gastronomia foi assegurada pelas coletividades do concelho, que confecionaram diversos pratos regionais, deliciando os milhares de visitantes que passaram pelo mercado. Tudo em ambiente medieval.
À semelhança dos outros anos, toda a animação aconteceu em diversos locais, sem hora marcada, à exceção dos torneios que estiveram sempre esgotados e que decorreram entre as 19h e as 20h, surpreendendo todos aqueles que estiveram no recinto do evento.
Para o presidente do Município, Telmo Faria, “foi mais um exemplo de que como um centro histórico não pode ficar adormecido a olhar para o passado. É preciso fazer desse passado um activo, um recurso de desenvolvimento. Creio que afirmámos mais uma vez a valorização patrimonial ao mostrarmos que o património de Óbidos está bem vivo e afirmámos também a dinâmica e a força das nossas comunidades locais que, connosco, apoiantes e patrocinadores, fazem deste projeto a grande celebração coletiva do Concelho de Óbidos. Estão todos de parabéns pelo que aqui fizeram durante 11 noites mágicas. Uma grande experiência”.

Fontes
RIO – Revista Informativa de Óbidos – Julho | Dezembro 08
Tinta Fresca, Jornal de Arte, Cultura & Cidadania – 13 Maio 2008
Público, Jornal diário, por Carlos Cipriano – 18 Julho 2008

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